O que é a pesca com mosca

Pescaria no rio melequina - patagônia argentina

 

Arte com mosca


Se o conceito de arte não se limitasse hoje no senso comum a determinadas atividades do ser humano relacionadas ao ato da sua educação, isto é, música, dança, plásticas e as cênicas, a pesca com mosca seria hoje um dos expoentes mais notáveis deste nobre conceito. Não gostaríamos de complicar a linguagem num texto que aponta ser simples, mas se necessário o faremos tentando demonstrar o sentido da ideia de pesca com mosca como arte. Indo em direção à etimologia da palavra arte, do Latim ars ou artis, e seu significado: maneira de ser ou agir, conduta, habilidade, ciência, talento, ofício. Entre outras definições encontradas no dicionário aparecem: modo; artifício; manha; astúcia. E, para fechar, a mais próxima de nosso metier: Aparelho de pesca (http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=arte). Sobre a definição do que é tecnicamente a pesca com mosca gostariamos de colocar o que aparece em alguns regulamentos de pesca: "utilização de uma isca artificial denominada mosca unida a uma linha especial para mosca, arremessada por uma vara apropriada para esta modalidade; o peso para o arremesso esta dado pela linha e não pela isca"(1). Diríamos que isto é algo técnico, e de fato sabemos que há muito mais por trás do rígido campo das definições.


Pode até parecer um jogo de palavras, feito de forma proposital, mas é o que ocorre na relação entre a arte e nossa modalidade em questão, simplesmente nos limitamos a juntar duas coisas, defini-las e finalmente tentaremos relacioná-las. Se para muitos dos pescadores nunca se materializou a ideia de pensar a pesca com mosca como arte, os convidamos a refletir sobre cada uma das definições do dicionário e imediatamente relaciona-las para sentir como elas estão tão próximas.


Se pensamos na primeira das definições (maneira de ser ou agir) veremos que cada "mosqueiro" adota a modalidade como uma parte mais do seu “ethos”(2), complementando-se com o que se refere à conduta. Veja se isto não é a imagem do que tentamos fazer na hora de pescar, de chegar no ambiente, na hora da interação com o recurso. Muita coincidência. Quando falamos nas próximas definições podemos até juntar duas delas: habilidade e talento. Então, perguntamos: "não é o que tentamos desenvolver com esse caniço, essa linha especial e essa isca artificial tão particular"? Afinal estas qualidades nos permitem chegar perto da satisfação de poder enganar, por alguns momentos, aos peixes. E diga-se de passagem a satisfação já começa no arremesso, numa mosca bem apresentada, numa subida ou ataque do peixe, consumando-se no ato supremo da captura e liberação posterior.


Não há duvida que é uma ciência, por todo o que devemos conhecer ou o que implicitamente operamos durante a pesca (física, biologia, ciências humanas...). E sobre ofício podemos dizer que ela se ajusta em todo o sentido da palavra, para aqueles que fazem da pesca com mosca o modo de subsistência, o que também envolve habilidades muito desenvolvidas. Sobre as outras definições, o modo é sem dúvida a "maneira de ser ou agir" descrita. Agora temos no artifício um meio artificial de criar e dar vida a esses alimentos que os peixes almejam. Parece realmente um sonho ver um peixe perseguindo um "alevino" feito de penas ou fibras sintéticas, ou emergindo das profundezas para engolir um minúsculo inseto elaborado com pêlos de algum animal de caça. Daí, o artificio. O artificial. E fechamos com duas definições quase perfeitas e que nos colocam num lugar privilegiado desse jogo que é hoje a pesca com mosca: manha, astúcia. Estas qualidades trazem aparelhadas algumas das melhores coisas que aprendemos nesta arte de pesca: a observação. Sem este atributo, a nossa pesca caminha por trilhas incertas. Com ela tudo se torna seguro, claro. Pensemos que todo estrategista precisa dela e por isso cria a manha e a astúcia para ganhar esse jogo. Todos somos estrategistas nesta pesca, alguns com mais experiencia, outros com menos, mas o tempo e as horas de rio nos dão o suficiente conhecimento para virar o páreo a nosso favor. Pelo menos é o que pretendemos! Se formos ao que seria o aparelho de pesca que aparece no dicionário cairemos na definição puramente técnica que encontramos no regulamento que traduzimos.


Nos afastando dos conceitos esboçados com base no dicionário e o regulamento citado vamos em direção ao senso comum, chegando também à convergência de pesca com mosca e arte. Voltamos a convidá-los a pensar nesta relação agora através dos nossos materiais: varas, carretilhas, linhas e iscas (moscas). Não são feitos como verdadeiras obras? Não viram com o tempo verdadeiras peças de coleção? Não gozam do verdadeiro senso estético como as obras de arte (beleza, belo)? Não sabemos se há duvidas sobre isto, e se houver proporiamos a cada pescador que se coloque como um apreciador de obras artísticas (quadros, ouvinte de música, espectador teatral). Não é o mesmo? E na prática da pesca, o arremesso não é uma dança? A fisgada, a corrida, o salto do peixe não é um passo de balé? Não merece uma música acompanhando a cena? Creio que até no senso comum fazemos a pesca-arte. Afinal, quando você se prepara, se veste, arruma os apetrechos, não se sente um artista pronto para entrar em cena?


Até aqui tentamos mostrar que não deveríamos nos estranhar se vemos ou entendemos esta pesca como arte. As relações traçadas mostram que, tanto do ponto de vista técnico quanto do metafórico, que aparece através da ideia do senso comum de arte, as coincidências são muito significativas. Por tudo o dito atá aqui só mencionariamos mais um detalhe: a fruição.


Para finalizar, há alguma coisa tão intensa para desfrutar quanto a arte? Talvez?


Talvez a pesca com mosca...


Notas de rodapé

(1)Tradução não oficial do item 14 da 1ª parte do "Regulamento de pesca continental patagônico" - Modalidades y artes de pesca autorizadas.

(2)Ethos é uma espécie de síntese dos costumes de um povo. A palavra ethos tem origem grega e significa valores, ética, hábitos e harmonia. É o "conjunto de hábitos e ações que visam o bem comum de determinada comunidade".



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Vinho, cerejas e pescaria na patagônia chilena

 

Uma filosofia


Onde encontramos, nos dias de hoje, a nossa liberdade? Vivemos cercados por uma selva de concreto que abafa nossos horizontes e sombreia nossos desejos. Nessas horas, a vontade de libertar-se da jaula se expressa com o mais belo dos relacionamentos humanos: a amizade.


Nos atemos aos amigos, ao envolvimento entre pessoas e suas inter-relações sociais. O cultural atinge em cheio o nosso ambiente, revela as filosofias que cada um carrega em si, mas tornam-se teremos comuns quando colocadas em uso num conjunto de pessoas que partilham o mesmo pensamento.


Envolve-se, aí, a natureza. A prática de um dever social de preservá-la, deixá-la intacta e próspera para os seguintes de nossa linhagem. Surgem, então, as formas de colocarmos em prática estes saberes. Uma, em especial, trata de forma muito próxima a preservação do meio ambiente e uma filosofia de vida, de ser e de pensar. Falamos, aqui, da Pesca com Mosca.


A Pesca com Mosca envolve um sentimento de conduta para e pela natureza, para e pelas relações humanas e, principalmente, para e pela relaçao homem-natureza. Para poder praticar a pesca em cenários exuberantes e preservados, é preciso ter a noção de que a natureza nos dá tudo o que necessitamos para sobreviver. Se delas tiramos um esporte, a pesca, dela também tiramos nossos alimentos. E, para chegarmos a estes lugares, nada melhor do que termos a companhia das pessoas mais próximas, aquelas que mais gostamos. De nada adianta uma peça de Shakespeare ser interpretada no Opera de Paris, sem público. De nada adianta compartilharmos bons momentos, com si próprio. Para termos, e sermos, precisamos preservar, adorar. O cuido com o meio ambiente torna-se fundamental para que possamos apreciar nossas relações nos lugares que mais nos tocam, nos extasiam.


Para um grupo de amigos, pescar não é apenas o ato de termos um peixe capturado no outro lado da linha, mas sim o ato de, junto com isto, gozar de momentos de descontração, amizade em rodas de vinho e de cachimbo. Estar, pescador. E não, ser, pescador.


Sair do rio sabendo que um momento tão bom quanto o de estar inserido nele virá, que é o momento de socializarmos nosso dia com um vinho à margem deste rio, ou durante o jantar, o carteado. Contarmos estórias de outros pagos, ouvir ditos de outras águas, que passam. Criar e cativar amizades, que ficam.


Uma filosofia.


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Textos O Voo da Mosca por Guilherme Deporte, Edevar Zorrer e Eduardo Ferraro

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